sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

Um porão de histórias

Ele nasceu no bairro de Botafogo e foi criado em uma favela na zona sul carioca, nos anos 60.  Sua infância se desenrolava num pequeno quintal dividido com tios e primos, mas seu lugar preferido era junto aos avós, uma casa no ponto mais alto do morro com um grande quintal nos fundos, com declives e uma bela vista para o bairro da Gávea, um cenário perfeito para suas aventuras e fantasias. 

No centro dessas lembranças, havia uma roseira especial. Plantada em frente à casa, ela era cercada por uma pequena vala de cimento, em círculo, que o avô construíra para protegê-la das formigas. Mas para ele, aquele detalhe não era só proteção; era um convite à imaginação. Ele arrancava folhas da própria roseira – algo que jamais deveria chegar ao conhecimento do avô – e as transformava em "barquinhos". As formigas eram os marinheiros, navegando naquele canal improvisado até o coração da roseira.

As brincadeiras se multiplicavam no quintal, mas graças aos declives, tinha uma que era mágica: inspirado por um filme que assistia na TV -Aventura Submarina - ele recriava o universo subaquático com engenhosidade de sobra. Uma garrafa plástica virava o cilindro de oxigênio; fios, os tubos de respiração; e um pregador de roupas, o bocal. Enquanto isso, ele imitava fielmente Mike Nelson, gesticulando como se estivesse explorando o fundo do mar, já que, obviamente, não podia falar "debaixo d’água".

Como não tinha televisão em sua casa, assistir TV pela janela da casa dos vizinhos de seus avós era uma experiência quase tão emocionante quanto as próprias brincadeiras. Havia uma regra clara: não esbarrar nos outros meninos e muito menos reclamar. Qualquer deslize resultava no fechamento da janela pelos donos da casa – uma sentença cruel que os mandava de volta para suas próprias casas, frustrados.

Mas o verdadeiro tesouro daquela casa estava escondido antes do quintal. No corredor lateral direito, ao final à esquerda, havia uma porta de madeira que guardava um mundo secreto: o porão. Lá dentro, um oceano de gibis e revistas esperava por ele, como uma cápsula do tempo. Seu avô, aparentemente amigo de um jornaleiro generoso, enchia o espaço com histórias e imagens.

Era uma coleção de sonhos em papel. Donald e Tio Patinhas, Pafúncio, Mutt e Jeff, Zorro (o da bala de prata), Cavaleiro Negro, Rock Lane e Durango Kid. Super-heróis como Super-Homem, Batman, Capitão América, Namor, Hulk e Thor dividiam espaço com gibis de guerra como Combate. E as revistas? Títulos como O Cruzeiro, Fatos e Fotos e Manchete traziam um mundo de histórias e curiosidades.

Ali começava uma paixão pela leitura que o levaria além. Depois dos gibis, vieram os livros de bolso, cheios de romance, espionagem e faroeste. E mais tarde, ele se aventuraria por clássicos da literatura brasileira e mundial: José de Alencar, Machado de Assis, Aluísio Azevedo, Edgar Allan Poe, Ernest Hemingway, Truman Capote, entre outros.

Sentado naquele chão, cada página era uma porta aberta para novos universos. Cada história, um convite para sonhar. E tudo começou ali, naquele quintal de infância, entre barcos de formigas, mergulhos imaginários e o perfume das revistas guardadas no porão.

Esse conjunto de figuras e letras impulsionaria seus sonhos, para um dia escrever suas histórias e estórias.

Autor do texto: Paulo Nascimento.


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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

Romário, o dono da area

Chamavam-no Romário, pois, assim como o jogador tetracampeão nacional, era considerado o dono da área. Era um cão pastor alemão que tinha como característica marcante uma das orelhas caída, talvez fruto de alguma maldade de alguém perverso. Vivia pelas ruas do bairro, mas aos finais de semana, à noite, ficava por perto do Bar do Cabeleira, um alagoano botafoguense, careca, muito gozador, que fazia uns espetos de churrasco muito elogiados na região. O bar era muito frequentado, por ter um ambiente acolhedor, boa música, bebidas geladas e deliciosos petiscos. 
Romário era muito esperto e querido no local e, além de receber o carinho da clientela, ele demonstrava um interesse especial pelos petiscos do bar.
Numa dessas noites, Quim, um dos fregueses, magro, baixinho e com um bigode grosso, pediu um churrasco e uma cerveja. 
Enquanto bebia e conversava com um amigo, ficou distraído. Segurando o espeto, baixou o braço e... quem estava de olho!? Ele... o craque canino que, num bote certeiro abocanhou o petisco e saiu correndo e, para surpresa geral, Quim saiu atrás dele até desaparecerem na esquina. Instantes depois, chega o Quim, vermelho, ofegante, dizendo para o amigo:
- Tá pensando o quê? Nem eu... nem ele. Sem entender nada o amigo perguntou:
- Cara, você saiu como um doido atrás do bicho, o que você fez?
- Peguei o Romário, arranquei o churrasco da boca dele e joguei por cima do muro de uma casa. Assim nem eu, nem ele comemos.
Olhando para o outro lado da rua, viu Romário sentado na calçada olhando para ele. Ainda indignado, completou com o dedo em riste:
- Eu não comi, você também não vai comer!
Romário, impassível, já estava de olho na próxima oportunidade.  Centro avante nato!

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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

Vacila, mas é maneiro

Lá pelas bandas de Santa Cruz, fiz uma amizade de bar com um cara que trabalhava como cobrador em uma linha de transporte alternativo do local. Sujeito magrelo, bom de papo e divertido, apreciador de uma caninha com mel — cerveja era mais raro ele beber.
Sempre que se encaminhava para encontrar com o dono da kombi, que morava próximo à minha residência, tinha o costume de me acenar quando eu, na maioria das vezes, estava na laje do segundo andar, envolto em obras.

Ocorre que, em um final de dia, quando me encontrava no bar curtindo minha cerva gelada, ele adentra o local e, em alto e bom som, pronuncia:
— Ué, não estava em casa hoje mais cedo? Olhei lá para a sua laje e não te vi, meu camarada!

A clientela do bar concentrou o olhar em mim e eu, respirando fundo, pensando na resposta ao abusado, disse:
— Você deu sorte, meu amigo. Tem vezes que as pessoas não me enxergam na laje, porque eu posso estar abaixado, catando algumas das pedras britas da obra para tacar na cabeça dos que tomam conta da minha vida.

Risada geral e ele, meio sem graça, respondeu:
— Amigo, amigo... calma, eu só estava brincando.
— Eu também, mas fica o alerta. Pra não ter briga, vamos beber uma gelada, que é melhor.

Autor do texto: Paulo Nascimento



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Pronto, xinguei!

Palavrão é algo com que só me acostumei por volta dos 14 anos, por causa do antigo ginasial.  Até ali, mesmo acostumado a escutar não me sen...