domingo, 30 de março de 2025

Ser poeta

Lembrando que no dia 21 de março foi comemorado o Dia Mundial da Poesia, presto uma homenagem aos poetas que colaboram com o nosso blog: Lúcia Andrade, Sidney Machado e Pablo Queiróz.

SER POETA

Ser Poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! 
Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma e sangue e vida em mim.
E dizê-lo cantando a toda gente!


Florbela Espanca, em seu livro Charneca em Flor, publicado em janeiro de 1931, um mês após sua morte, com sua poesia intensa e melancólica, expressa a poesia como um destino inevitável, uma vocação que consome e engrandece ao mesmo tempo. O poema enaltece a figura do poeta como alguém que sente a vida de maneira extrema e a transforma em arte.

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domingo, 23 de março de 2025

Vai chover hoje?

Saindo de casa para o trabalho, olho para cima e vejo o céu carregado de nuvens, o que me leva a calcular que, em vinte e cinco minutos, chegarei ao destino – trajeto a pé que faço diariamente – sem necessidade do guarda-chuva.
Assim faço e, como ando ligeiro, sigo despreocupado.  Já estava próximo de chegar quando percebi o cenário: até então, meu trajeto contava com abrigos que me protegeriam da chuva iminente... ali, não!
Não, não começou com respingos. Veio como um balde d’água de uma vez só, encharcando-me na hora, sem que eu tivesse oportunidade de correr. Continuei resignado, encharcado e revoltado até chegar ao local de trabalho, uma fábrica, e entrando no meu setor fui recebido pelos colegas com um coro de risadas, sendo que um deles se jogou ao chão, enfatizando ainda mais o ridículo da minha situação.  Esse colega providenciou um uniforme e botinas na CIPA para que minhas roupas secassem e, ao final do dia, eu pudesse voltar seco para casa.
Desde então, passei a carregar um guarda-chuva na mochila. Mas qual é, afinal, a segurança que ele garante?
Nenhuma!  Anos depois em outro emprego, a história de um colega confirmou isso.
Ele contou que, após visitar um cliente, chegou à estação Largo da Carioca do metrô debaixo de muita chuva. Na saída, uma multidão esperava a tempestade diminuir.  Pedindo passagem entre as demais pessoas e, com ar superior, tirou seu guarda-chuva automático da bolsa, apontou para a frente, apertando a trava de segurança e assistiu o guarda-chuva "voando" para a rua, restando só o cabo em sua mão e a vergonha diante da platéia.
Agora pergunto: vai chover hoje?

Autor do texto: Paulo Nascimento


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domingo, 16 de março de 2025

Desafio entre gerações

Tinha dezesseis anos, trabalhava no centro da cidade e à noite estudava.  

Mas, em algumas quintas ou sextas-feiras acompanhava o tio - cinco anos mais velho - para um encontro com colegas de bar, a fim de beber umas cervejas e bater papo. 

O bar era localizado na Rua do Rosário, onde ele já tinha conhecido os "ceguinhos" vendedores de bilhetes de loteria; um  jornaleiro italiano, seu Ângelo, que ensinava palavrões em sua língua natal; e outros personagens daquela fauna urbana. 

Um detalhe inusitado: o dono do bar era português, botafoguense e se chamava César, um combo talvez inédito.  Seu tio se reunia ali com seu compadre, um mineiro alto e engraçado e um funcionário de uma loja lotérica daquela rua, com idade aparentando uns cinquenta anos.  Uma variedade de assuntos surgia naquele local, regada a cerveja e umas cachacinhas que os adultos entremeavam de vez em quando durante as conversas, além dos petiscos tradicionais.

Em uma dessas ocasiões, o assunto girou em torno de músicas e o funcionário da lotérica, meio metido a cantor, começou a entoar algumas serestas e boleros e de repente, veio a provocação: 

- Essa garotada só sabe "o tal do rock", não sabem o que é música de verdade!  

Mexeu com a pessoa errada! O garoto provocado respondeu: 

- Gosto muito de rock sim!  Slade, Black Sabbath, The Who, Pink Floyd, são alguns dos meus preferidos, além da MPB de Caetano, Gil, Gal, Betânia, Chico, Milton Nascimento e por aí vai.  Mas, tem um detalhe: meu pai escuta muito Nelson Gonçalves, Altemar Dutra, Orlando Silva, Helena de Lima e ate Waldick Soriano e eu escuto junto e conheço as músicas.  

- Vamos fazer o seguinte: cante aí uma seresta ou bolero para ver se eu não sei!

Começou ali o desafio com A Volta do Boêmio: "Boemia, aqui me tens de regresso e suplicante lhe peço a minha nova inscrição".  Ele puxou a música, e o garoto não só completou como ainda o deixou surpreso. Sucederam-se outras canções e o jovem passou a chamar a atenção dos demais fregueses tanto pela boa voz, quanto pelo conhecimento do repertório.

Essa interação deu ao rapaz um certo prestígio entre os mais velhos e a eles uma sensação de que " nem tudo está perdido nessa geração".

O funcionário da lotérica, que antes duvidava, agora sempre perguntava quando o garoto não estava presente:

— Cadê seu sobrinho bom de onda? No mínimo, deve estar em outro bar dando aula de música!


Autor do texto: Paulo Nascimento


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domingo, 9 de março de 2025

Na manha, também se ganha

Tudo começou com um passe de calcanhar e de letra, desperdiçado pelo colega de time com um chute por cima do travessão. O lance chamou atenção, e logo veio o assédio do Campeão, o melhor time de futebol society da fábrica. A transferência aconteceu, e o Só Acredito Vendo perdeu sua revelação: o novato recém-chegado à fábrica.

Curioso o fato de serem times do mesmo setor da fábrica, uma espécie de times A e B. Bom, nosso personagem sabia que, no time B, seria destaque, enquanto no Campeão teria chance de entrar em algumas partidas, visto o nível da equipe.

E assim se deu. Ele entrava em alguns jogos, onde eram necessárias, principalmente, a velocidade e rapidez – suas melhores características.

Uma de suas partidas de destaque foi contra o time da Manutenção.

Estava no banco de reservas. O jogo comia solto entre duas equipes de mesmo nível, quando o adversário fez 1x0, ainda no primeiro tempo. Após o intervalo, decorrido um período sem que o empate acontecesse, o técnico do Campeão chamou-o e deu a seguinte instrução:

— O zagueiro deles tá "engolindo" o nosso camisa 9. O cara é alto e você, mais rápido. Tente explorar isso em cima dele.

Aquecimento feito, entrou em campo. Na primeira bola disputada, após um chute dado por um companheiro de fora da área, o goleiro chegou um pouco antes e conseguiu defender. Para não perder a viagem, quis brincar com o goleiro:

— Segura firme! Eu entrei para virar o jogo!

Algo despretensioso desencadeou uma fúria no tal zagueiro apontado pelo técnico:

— Deixa de ser palhaço, moleque!

Vendo o ponto fraco a ser explorado, respondeu em tom de deboche:

— Cuidado comigo! Eu sou a arma secreta do time...

E saiu rindo.

Dali em diante, o zagueiro passou a vigiá-lo, e ele começou a se deslocar pelos lados do campo, dificultando a marcação.

Em uma jogada perdida, mesmo sendo baixinho, tentou disputar com o zagueiro. O adversário, desestabilizado, jogou o cotovelo de raspão em sua orelha, mas ele caiu se contorcendo de um jeito que o juiz aplicou cartão amarelo no sujeito. Levantou-se e, disfarçadamente, falou baixinho para o adversário:

— Dá outra, que vai ser expulso.

Virou as costas, imaginando o cara bufando de raiva.

Na próxima jogada, pelo alto, ameaçou pular, sabendo que a bola seria dominada pelo goleiro. Porém, o furioso zagueiro jogou o corpo contra ele. Ele se desviou, e, no encontrão entre eles, a bola sobrou nos pés de quem? De quem? Bastou um toque para o fundo das redes e sair para o abraço!

Com o empate garantido, bola no centro do campo, viu o camisa 9 do time se aquecendo para voltar, enquanto o técnico lhe acenava. Saiu e ouviu do treinador:

— Valeu, garoto, mas é melhor sair, senão o negão vai te quebrar.

Referia-se, claro, ao zagueiro nervoso.

Do banco, assistiu ao camisa 9 passar pelo zagueiro já desnorteado, encher o pé e acertar a bola no ângulo para fazer 2x1.

Fim de jogo, vitória conquistada!

Dirigiu-se ao zagueiro e tentou apertar-lhe a mão, mas foi recusado:

— Quero papo, não!

Após o banho no vestiário, era a hora da cervejinha nas barracas vizinhas da fábrica. Em uma delas, viu o zagueirão zangado e, em tom conciliador, se aproximou, sorrindo:

— Pô, negão! Vai ficar com raiva de mim por causa de um jogo?

A resposta veio mal-humorada:

— Sai daqui! Tu é muito chato!

O baixinho retrucou:

— Tu joga muito, cara! Se continuasse focado na bola... Mas eu ganhei na manha, e você deu mole. Vamos tomar uma cerveja juntos e deixar isso pra lá.

Ainda com cara de emburrado, ele pensou melhor e respondeu:

— Senta aí... Você tem razão.

Ganhou o jogo e um amigo!

Autor do texto: Paulo Nascimento

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sábado, 8 de março de 2025

Sou Mulher e não Troféu


Também posso sumir,
Desaparecer na calada da noite.
Te deixar no vazio,
Dar-te a solidão como açoite.
Tão seguro de si,
Achou que eu comia em sua mão.
Sem jamais imaginar
Que ainda sou dona do meu coração.
Não sou brinquedo de ninguém
Por mais que se venha a gostar.
Estar contigo é sempre bom
Mas não esqueci de me amar.
Com meus sentimentos não jogue,
Sou mulher e não troféu.
Trate-me com respeito
Pra não provar do meu fel.
Quando enfim amadurecer
Venha me procurar.
Torne-se um homem de verdade
Pra que eu possa te amar.


Autora do texto: Lucia Andrade



Dia Internacional da Mulher


Fonte: Facebook - André Mota - Álbum

sexta-feira, 7 de março de 2025

A tanajura do pedaço

Era a tanajura do pedaço, não tinha pra ninguém. O seu derrière atraía os olhares masculinos cobiçosos e os comentários desdenhosos das invejosas de plantão. Devido ao assédio constante na juventude, gabava-se da sua beleza sem se dar conta de que o interesse geral era localizado em um ponto específico da sua anatomia. Decorridos muitos anos, uma coleção de namorados, dois casamentos desfeitos e os efeitos da gravidade atuando no corpo notadamente naquela área que foi motivo do seu sucesso de outrora, ali estava ela, esparramada no sofá da sala com um pote de pipoca no colo, assistindo ao desfile de carnaval. Um evidente espetáculo de belos corpos femininos seminus, de sinuosas silhuetas, seus sorrisos procurando as câmeras de TV em busca do sucesso, mesmo que efêmero, pensando em virar "celebridade". Ao seu lado, o atual companheiro com um copo de cerveja na mão, se deliciava com a anatomia das mulheres, elogiando dissimuladamente a evolução das escolas de samba a fim de disfarçar seu real interesse. 
- Dez, nota dez! Essa Escola está perfeita.
Em um surdo gemido, com dificuldade, apoiando-se em um dos braços do sofá, assustando o gato preguiçoso que ali dormia, ela aproximou-se da TV e, fixando o olhar bem perto da tela, resmungou algo - talvez um palavrão. 
Com ar triunfante, aprumou o corpo e saiu dizendo em voz alta: 
- No meu tempo não tinha botox nem silicone, era tudo natural. Quem mandava no pedaço era eu!

Autor do texto: Paulo Nascimento.

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Pronto, xinguei!

Palavrão é algo com que só me acostumei por volta dos 14 anos, por causa do antigo ginasial.  Até ali, mesmo acostumado a escutar não me sen...