A crença de que a felicidade é um direito tem tornado despreparada a geração mais preparada
Ao conviver com os bem mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há pouco e com aqueles que estão tateando para virar gente grande, percebo que estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, da mais despreparada. Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor.
Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade.
Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste.
Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso ralar muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos. Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora: viver é para os insistentes.
Por que boa parte dessa nova geração é assim? Penso que este é um questionamento importante para quem está educando uma criança ou um adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os perrengues – sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade.
É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto de sua condição humana como de suas capacidades individuais?
Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina. Este atesta a excelência dos genes de seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar no país.
Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.
Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido. Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer.
A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”? É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumaça desaparece deixando nenhum chão. Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha, começa a se explicitar no confronto com os muros da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem mesmo para falar da tristeza e da confusão.
Me parece que é isso que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado? Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando de seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da completude.
Quando o que não pode ser dito vira sintoma – já que ninguém está disposto a escutar, porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar. E não por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam segundo o manual. Assim, a família pode tocar o cotidiano sem que ninguém precise olhar de verdade para ninguém dentro de casa.
Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir.
Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem buscar. E por isso logo é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo funcionando.
O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas se desconhecem. E, portanto, estão perdendo uma grande chance. Todos sofrem muito nesse teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.
Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente vira gente grande.
Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência. É tão ruim quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito.
Agora, se os pais mentiram que a felicidade é um direito e seu filho merece tudo simplesmente por existir, paciência. De nada vai adiantar choramingar ou emburrar ao descobrir que vai ter de conquistar seu espaço no mundo sem nenhuma garantia. O melhor a fazer é ter a coragem de escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não deu certo, porque com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a responsabilidade pela sua desistência.
Crescer é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba.
Texto publicado originalmente na revista Época, do dia 11 de julho de 2011.
* Eliane Brum é jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo)
A ideia deste blog é promover agradáveis encontros com os que compartilham minhas esperanças, através das minhas letras incertas. Sejam bem-vindos!
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domingo, 12 de maio de 2013
domingo, 30 de setembro de 2012
O Próximo dia 7 de outubro
No próximo dia 7 de outubro teremos as eleições municipais no nosso país. Com o encerramento das campanhas no rádio, na televisão, nos carros de som ou por meio de panfletagens, ficaremos um pouco em paz para refletirmos que atitude tomaremos no dia das eleições. Pessoalmente, fiquei aliviado com aquelas músicas irritantes nos ouvidos que procuram nos impor uma lavagem cerebral e de tão perigosas houve momentos em que tive que chacoalhar o cérebro para parar de ouvi-las.
É frustrante sabermos que as campanhas não discutiram temas importantes e de interesse da população. Pelo contrário, tivemos muita propaganda, e só. Na TV, principalmente, fez-se uso de belas imagens ou depoimentos do tipo "Alice no País das Maravilhas" pelo lado dos partidos da situação, ou de imagens mostrando o contrário pelo lado da oposição. Palavras e frases antigas como: "fascismo", "o poder nas mãos do trabalhador", "burguês", etc..., tentaram nos vender ideologias há muito sem sentido. Não precisamos de um Politiburo para nos governar, precisamos participar como cidadãos acompanhando os passos daqueles a quem confiamos um cargo eletivo e cobrando deles atitudes condizentes com tal posição. Chega de projetos inacabados, frutos de ambições eleitoreiras, tipo: CIEP, CIAC, CAIC, CRIAM, Moreirinha, todos com o objetivo de personificação do autor, criados sem planejamento a longo prazo, talvez propositalmente, para serem substituídos posteriormente por novos projetos e novos gastos com acusações ao antecessor que com o passar do tempo será mais um aliado na luta para derrubar um terceiro que correu por fora.
O que mais ouvi falar nessa campanha eleitoral de uma boa parte dos candidatos foi que precisamos construir novas creches. Vai faltar espaço para tanta creche ou haverá uma escassez de mães com filhos para matricular nelas. Obviamente, mães que trabalhem.
Já tenho o meu candidato: foi um que, em vez de dizer que ajudará na criação de empregos, disse que trabalhará por mim. Já preparei o meu sofá para descansar enquanto ele trabalha por mim. Pois sim!
Leia mais: Voto Traído
Autor do texto: Paulo Roberto Nascimento
É frustrante sabermos que as campanhas não discutiram temas importantes e de interesse da população. Pelo contrário, tivemos muita propaganda, e só. Na TV, principalmente, fez-se uso de belas imagens ou depoimentos do tipo "Alice no País das Maravilhas" pelo lado dos partidos da situação, ou de imagens mostrando o contrário pelo lado da oposição. Palavras e frases antigas como: "fascismo", "o poder nas mãos do trabalhador", "burguês", etc..., tentaram nos vender ideologias há muito sem sentido. Não precisamos de um Politiburo para nos governar, precisamos participar como cidadãos acompanhando os passos daqueles a quem confiamos um cargo eletivo e cobrando deles atitudes condizentes com tal posição. Chega de projetos inacabados, frutos de ambições eleitoreiras, tipo: CIEP, CIAC, CAIC, CRIAM, Moreirinha, todos com o objetivo de personificação do autor, criados sem planejamento a longo prazo, talvez propositalmente, para serem substituídos posteriormente por novos projetos e novos gastos com acusações ao antecessor que com o passar do tempo será mais um aliado na luta para derrubar um terceiro que correu por fora.
O que mais ouvi falar nessa campanha eleitoral de uma boa parte dos candidatos foi que precisamos construir novas creches. Vai faltar espaço para tanta creche ou haverá uma escassez de mães com filhos para matricular nelas. Obviamente, mães que trabalhem.
Já tenho o meu candidato: foi um que, em vez de dizer que ajudará na criação de empregos, disse que trabalhará por mim. Já preparei o meu sofá para descansar enquanto ele trabalha por mim. Pois sim!
Leia mais: Voto Traído
Autor do texto: Paulo Roberto Nascimento
sábado, 29 de setembro de 2012
Recordando um grande herói da luta livre
Nesta quinta-feira, 27 de setembro, faleceu Mario Marino, conhecido como Ted Boy Marino, um dos astros do telecath brasileiro na década de 1960.
Nascido na Calábria, região da Itália, em 18 de outubro de 1939, aos 12 anos foi para Buenos Aires, no porão de um navio, junto com os pais e cinco irmãos. Em 1965, chegou ao Brasil, sendo contratado pela antiga TV Excelsior que exibia um programa de Telecatch, onde ele passou a se apresentar e posteriormente o programa passou a ser exibido na TV Globo, sendo um dos programas líderes de audiência na década de 60.
Ainda criança, lembro-me bem das lutas muito bem encenadas, onde tudo era válido em nome do espetáculo lúdico do confronto entre o bem e o mal, quando ao final de tudo, mesmo tendo os lutadores malvados utilizado suas artimanhas e seus golpes sujos: mordida, dedo nos olhos, esfregar limão nos olhos, etc..., a vitória do bem era certa para o delírio dos espectadores – que faziam parte da encenação – e os telespectadores, muitos com a convicção de que tudo aquilo era verdadeiro e escolhendo alguns daqueles lutadores como seus heróis.
Ted Boy Marino era um galã loiro e um ícone da época, recebendo milhares de cartas por semana dos seus fãs. Dentre muitos outros, vale destacar alguns dos reis do ringue que dividiam a cena com Ted Boy: Tigre Paraguaio, Leopardo, Mongol, Verdugo, Tony Videla e Rasputin Barba Vermelha.
Eram tempos difíceis de ditadura e o nosso refúgio era aquela encenação onde habilidosos lutadores até se machucavam na execução dos movimentos previamente treinados, embora não tivessem o objetivo de machucar ninguém. Hoje, as lutas apresentadas na televisão demonstram uma violência fora do comum, talvez significativa de que os tempos mudaram... ou mudamos nós?
Descanse em paz, Ted Boy Marino.
Leia mais em Não estamos no Coliseu
Autor do texto: Paulo Roberto Nascimento.
Vídeo extraído do You Tube.
Nascido na Calábria, região da Itália, em 18 de outubro de 1939, aos 12 anos foi para Buenos Aires, no porão de um navio, junto com os pais e cinco irmãos. Em 1965, chegou ao Brasil, sendo contratado pela antiga TV Excelsior que exibia um programa de Telecatch, onde ele passou a se apresentar e posteriormente o programa passou a ser exibido na TV Globo, sendo um dos programas líderes de audiência na década de 60.
Ainda criança, lembro-me bem das lutas muito bem encenadas, onde tudo era válido em nome do espetáculo lúdico do confronto entre o bem e o mal, quando ao final de tudo, mesmo tendo os lutadores malvados utilizado suas artimanhas e seus golpes sujos: mordida, dedo nos olhos, esfregar limão nos olhos, etc..., a vitória do bem era certa para o delírio dos espectadores – que faziam parte da encenação – e os telespectadores, muitos com a convicção de que tudo aquilo era verdadeiro e escolhendo alguns daqueles lutadores como seus heróis.
Ted Boy Marino era um galã loiro e um ícone da época, recebendo milhares de cartas por semana dos seus fãs. Dentre muitos outros, vale destacar alguns dos reis do ringue que dividiam a cena com Ted Boy: Tigre Paraguaio, Leopardo, Mongol, Verdugo, Tony Videla e Rasputin Barba Vermelha.
Eram tempos difíceis de ditadura e o nosso refúgio era aquela encenação onde habilidosos lutadores até se machucavam na execução dos movimentos previamente treinados, embora não tivessem o objetivo de machucar ninguém. Hoje, as lutas apresentadas na televisão demonstram uma violência fora do comum, talvez significativa de que os tempos mudaram... ou mudamos nós?
Descanse em paz, Ted Boy Marino.
Leia mais em Não estamos no Coliseu
Autor do texto: Paulo Roberto Nascimento.
Vídeo extraído do You Tube.
domingo, 12 de agosto de 2012
Dia dos Pais: No dia da comemoração, um artigo para reflexão
“Pai não é quem faz e sim quem cria, quem ama e quem ensina"
O pai é o maior herói de todos os filhos
No Brasil o Dia dos Pais é comemorado sempre no segundo domingo do mês de agosto, mas isso não acontece em todo o mundo, cada país escolhe livremente o dia para essa importante comemoração, mas a comemoração que hoje acontece seria muito mais importante se não fosse por força comercial, tanto que a idéia de comemorar esta data partiu do publicitário Sylvio Bhering e foi festejada pela primeira vez no dia 14 de Agosto de 1953, dia de São Joaquim, patriarca da família. Acredito que seria muito mais satisfatória se fosse por laços afetivos, na importância do pai na criação do filho e por amor do filho ao pai, vou mostrar algo aqui para que todos os filhos leiam e reflitam.
Meu pai quando eu tinha... (Ann Landers)
4 anos: Meu pai pode fazer tudo.
5 anos: Meu pai sabe muitas coisas.
6 anos: Meu pai é mais esperto do que o seu pai.
8 anos: Meu pai não sabe exatamente tudo.
10 anos: No tempo antigo, quando o meu pai foi criado, as coisas eram muito diferentes
12 anos: Ah, é claro que o papai não sabe nada sobre isso. É muito velho para se lembrar da sua infância.
14 anos: Não ligue para o que meu pai diz. Ele é tão antiquado!
21 anos: Ele? Meu Deus, ele está totalmente desatualizado!
25 anos: Meu pai entende um pouco disso, mas pudera! É tão velho!
30 anos: Talvez devêssemos pedir a opinião do papai. Afinal de contas, ele tem muita experiência.
35 anos: Não vou fazer coisa alguma antes de falar com o papai.
40 anos: Eu me pergunto como o papai teria lidado com isso. Ele tem tanto bom senso, e tanta experiência!
50 anos: Eu daria tudo para que o papai estivesse aqui agora e eu pudesse falar com ele sobre isso. É uma pena que eu não tivesse percebido o quanto era inteligente. Teria aprendido muito com ele.
Pai de todo jeito...
Tem pai que ama, mas tem pai que esquece do amor;
Tem pai que adota, mas tem pai que abandona,
Tem pai que não sabe que é pai, mas tem filho que não sabe do pai.
Tem pai que dá amor, mas tem pai que dá presente,
Tem pai por amor, mas tem pai por acaso,
Tem pai que se preocupa com os problemas do filho, mas tem pai que não sabe dos problemas do filho...
Tem pai que ensina, mas tem pai que não tem tempo,
Tem pai que sofre com o sofrimento do filho, mas tem pai que deixa o filho esquecido.
Tem pai de todo jeito
Tem pai que encaminha o filho, mas tem pai que o deixa no caminho,
Tem pai que assume, mas tem pai que rejeita,
Tem pai que acaricia, mas tem pai que não sabe onde está o filho que precisa de carinho.
Tem pai que afaga, mas tem pai que só pensa em negócios.
Tem pai de todo jeito.
E você???
Que tipo de pai você é?
Eu quero um pai, apenas um pai que esteja consciente do amor
que tem para dividir...
Eu quero um pai, apenas um pai que seja AMIGO!
Artigo extraído do Blog do Pereira
http://jpsfisp.blogspot.com.br/2009/08/pai-nao-e-quem-faz-e-sim-quem-cria-quem.html
quarta-feira, 18 de julho de 2012
Madiba - 94 anos - Dia Internacional de Mandela
O Dia Internacional de Mandela é celebrado desde 2010, uma iniciativa da ONU que marca o aniversário do ex-presidente sul-africano Nelson Mandela que completou 94 anos nesta quarta-feira. Esta iniciativa visa estimular todos os cidadãos a dedicarem nesse dia 67 minutos a causas sociais, simbolizando um minuto por cada ano que o líder sul-africano dedicou em sua luta pela igualdade racial e o fim do apartheid.
Chamado de Madiba - nome do clã de Mandela em língua xhosa, sua etnia, Rolihlahla Dalibhunga Mandela, recebendo posteriormente na escola o nome inglês Nelson, nasceu no pequeno vilarejo de Qunu, distrito de Umtata, na região do Transkei. Foi um líder rebelde e, posteriormente, de 1994 a 1999, se tornou o primeiro presidente negro da África do Sul após vencer as primeiras eleições multirraciais da África do Sul, terminando com o regime segregacionista do apartheid, imposto pela minoria branca sul-africana.
Considerado pelo governo sul-africano um terrorista, passou quase três décadas na cadeia. Estudante de direito, ainda jovem, Mandela juntou-se ao movimento de oposição ao regime do apartheid, que negava aos negros, mestiços e indianos seus direitos políticos, sociais e econômicos, sendo um dos fundadores da Liga Jovem do Congresso Nacional Africano, em 1944.
Sua mensagem de reconciliação e convivência entre as diferentes raças, que possibilitou a transição rumo a uma África do Sul democrática, lhe valeu o Nobel da Paz em 1993, prêmio que recebeu junto ao então presidente, Frederik Willem de Klerk.
Mandela, partidário de atos não-violentos como forma de protestar contra o governo, só aceitou recorrer às armas junto com seus colegas após o massacre de Shaperville, em março de 1960, quando a polícia sul-africana matou a tiros 69 manifestantes negros, ferindo 180. Dali em diante, ele se tornou comandante do braço armado do CNA, sendo preso em agosto de 1962 e condenado a prisão perpétua em 1964 por crime de sabotagem e conspiração.
Somente em 1990 o preso 466/64 foi libertado no governo conciliador do presidente Frederik Willem de Klerk.
Texto: Paulo Roberto Nascimento
Algumas de suas frases:
"Sonho com o dia em que todos levantar-se-ão e compreenderão que foram feitos para viverem como irmãos."
"A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo.
"O bravo não é quem não sente medo, mas quem vence esse medo."
Chamado de Madiba - nome do clã de Mandela em língua xhosa, sua etnia, Rolihlahla Dalibhunga Mandela, recebendo posteriormente na escola o nome inglês Nelson, nasceu no pequeno vilarejo de Qunu, distrito de Umtata, na região do Transkei. Foi um líder rebelde e, posteriormente, de 1994 a 1999, se tornou o primeiro presidente negro da África do Sul após vencer as primeiras eleições multirraciais da África do Sul, terminando com o regime segregacionista do apartheid, imposto pela minoria branca sul-africana.
Considerado pelo governo sul-africano um terrorista, passou quase três décadas na cadeia. Estudante de direito, ainda jovem, Mandela juntou-se ao movimento de oposição ao regime do apartheid, que negava aos negros, mestiços e indianos seus direitos políticos, sociais e econômicos, sendo um dos fundadores da Liga Jovem do Congresso Nacional Africano, em 1944.
Sua mensagem de reconciliação e convivência entre as diferentes raças, que possibilitou a transição rumo a uma África do Sul democrática, lhe valeu o Nobel da Paz em 1993, prêmio que recebeu junto ao então presidente, Frederik Willem de Klerk.
Mandela, partidário de atos não-violentos como forma de protestar contra o governo, só aceitou recorrer às armas junto com seus colegas após o massacre de Shaperville, em março de 1960, quando a polícia sul-africana matou a tiros 69 manifestantes negros, ferindo 180. Dali em diante, ele se tornou comandante do braço armado do CNA, sendo preso em agosto de 1962 e condenado a prisão perpétua em 1964 por crime de sabotagem e conspiração.
Somente em 1990 o preso 466/64 foi libertado no governo conciliador do presidente Frederik Willem de Klerk.
Como presidente da África do Sul, Mandela lutou pela reconciliação interna e externa de forma democrática. Utilizou de todos os recursos para unir o seu povo, inclusive o esporte ao incentivar a seleção nacional, formada por brancos, convencendo o capitão da equipe, François Pienaar, de que a equipe sul africana tinha condições de ser campeã, o que acabou acontecendo. Este fato foi relatado no filme Invictus, dirigido por Clint Eastwood, com Morgan Freeman no papel de Mandela e Matt Damon no papel de François Pienaar.
Em latim invictus significa invencível. E invencível é este valoroso ser humano.
Texto: Paulo Roberto Nascimento
Algumas de suas frases:
"Sonho com o dia em que todos levantar-se-ão e compreenderão que foram feitos para viverem como irmãos."
"A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo.
"O bravo não é quem não sente medo, mas quem vence esse medo."
Nelson Mandela e o capitão da seleção sul-africana de rúgbi François Pienaar
Vídeo extraído no You Tube
sexta-feira, 16 de março de 2012
O Tenor Italiano Andrea Bocelli
Na edição de março/2012 da revista Seleções do Reader's Digest, em entrevista a Danny Scott, o tenor italiano Andrea Bocelli fala das suas lembranças mais importantes: a sensação de liberdade da infância na fazenda da família, na Toscana; da primeira vez que ouviu a música de Mario Lanza e Mario Del Monaco, este último cantando O Sole Mio - "Foi muito forte, como se capturassem o meu coração"; das cavalgadas com o pai, Sandro, que amava os cavalos mas não os cavalgava por medo.
Ele fala, ainda, da dificuldade de entender por que as pessoas gostavam de ouvi-lo cantar se ele não achava sua voz tão especial - "talvez o meu destino seja esse", passou a admitir.
Aos 12 anos, em 1970, ganhou o primeiro concurso de canto e no mesmo ano ficou cego, fato que considera não ter diferenciado o seu modo de escutar a música, ou interferir na sua voz - "Se fosse verdade, todo cego cantaria bem, e todo cantor de ópera seria cego."
Falou da importância dos conselhos da sua mãe na sua carreira para que cuidasse da voz quando ainda era jovem, da sua crença em Deus - "Deus me ajuda a compreender este mundo complicadíssimo em que vivemos", e da honra de cantar para o Papa João Paulo II, em 1994.
Gravar Time to Say Goodbye, com Sara Brigthman, foi importante para a sua carreira: "De vez em quando surge uma música que inspira uma sensação especial em todo mundo. Essa foi uma delas."
Do amigo Luciano Pavarotti, diz sentir falta, pela educação, gentileza, inteligência e generosidade, apesar do temperamento. Das críticas que o incomodavam no início, define: "Ninguém é perfeito todo dia, nem mesmo os críticos."
Completando a entrevista falou de seus filhos, que estudam música clássica e a liberdade de escolha deles quanto ao futuro na música ou outra carreira; da participação, em 2005, no programa Vila Sésamo; do seu medo de palco e de procurar não pensar na quantidade de pessoas que podem estar assistindo suas apresentações: " Na minha cabeça, somos só eu e a música".
Autor do texto: Paulo Roberto Nascimento
terça-feira, 15 de novembro de 2011
Um Texto Para Reflexão - Sobre os Nossos Filhos
A crença de que a felicidade é um direito tem tornado despreparada a geração mais preparada
Ao conviver com os bem mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há pouco e com aqueles que estão tateando para virar gente grande, percebo que estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, da mais despreparada. Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor.
Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade.
Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste.
Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso ralar muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos. Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora: viver é para os insistentes.
Por que boa parte dessa nova geração é assim? Penso que este é um questionamento importante para quem está educando uma criança ou um adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os perrengues – sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade.
É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto de sua condição humana como de suas capacidades individuais?
Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina. Este atesta a excelência dos genes de seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar no país.
Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.
Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido. Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer.
A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”? É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumaça desaparece deixando nenhum chão. Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha, começa a se explicitar no confronto com os muros da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem mesmo para falar da tristeza e da confusão.
Me parece que é isso que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado? Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando de seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da completude.
Quando o que não pode ser dito vira sintoma – já que ninguém está disposto a escutar, porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar. E não por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam segundo o manual. Assim, a família pode tocar o cotidiano sem que ninguém precise olhar de verdade para ninguém dentro de casa.
Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir.
Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem buscar. E por isso logo é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo funcionando.
O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas se desconhecem. E, portanto, estão perdendo uma grande chance. Todos sofrem muito nesse teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.
Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente vira gente grande.
Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência. É tão ruim quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito.
Agora, se os pais mentiram que a felicidade é um direito e seu filho merece tudo simplesmente por existir, paciência. De nada vai adiantar choramingar ou emburrar ao descobrir que vai ter de conquistar seu espaço no mundo sem nenhuma garantia. O melhor a fazer é ter a coragem de escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não deu certo, porque com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a responsabilidade pela sua desistência.
Crescer é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba.
Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade.
Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste.
Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso ralar muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos. Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora: viver é para os insistentes.
Por que boa parte dessa nova geração é assim? Penso que este é um questionamento importante para quem está educando uma criança ou um adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os perrengues – sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade.
É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto de sua condição humana como de suas capacidades individuais?
Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina. Este atesta a excelência dos genes de seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar no país.
Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.
Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido. Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer.
A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”? É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumaça desaparece deixando nenhum chão. Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha, começa a se explicitar no confronto com os muros da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem mesmo para falar da tristeza e da confusão.
Me parece que é isso que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado? Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando de seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da completude.
Quando o que não pode ser dito vira sintoma – já que ninguém está disposto a escutar, porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar. E não por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam segundo o manual. Assim, a família pode tocar o cotidiano sem que ninguém precise olhar de verdade para ninguém dentro de casa.
Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir.
Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem buscar. E por isso logo é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo funcionando.
O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas se desconhecem. E, portanto, estão perdendo uma grande chance. Todos sofrem muito nesse teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.
Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente vira gente grande.
Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência. É tão ruim quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito.
Agora, se os pais mentiram que a felicidade é um direito e seu filho merece tudo simplesmente por existir, paciência. De nada vai adiantar choramingar ou emburrar ao descobrir que vai ter de conquistar seu espaço no mundo sem nenhuma garantia. O melhor a fazer é ter a coragem de escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não deu certo, porque com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a responsabilidade pela sua desistência.
Crescer é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba.
Texto publicado originalmente na revista Época, do dia 11 de julho de 2011.
* Eliane Brum é jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo)
* Eliane Brum é jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo)
Trabalhadores pela Paz
Sou dessas pessoas admiradoras daqueles que lutam e lutaram pela paz e pela igualdade: Martin Luther King, Mahatma Gandhi, Nelson Mandela e outros. Sem empunharem armas, mesmo com o sacrifício de suas vidas ou de sua liberdade, souberam abrir espaço para a conquista de melhores destinos para seus semelhantes.
Li recentemente um artigo da revista Seleções do Reader's Digest onde Leymah Gbowee foi entrevistada. Ela é uma das vencedoras do Prêmio Nobel da Paz 2011 - juntamente com a presidente de seu país - a Libéria - Ellen Johnson Sirleaf, e Tawakkul Karman, ativista do Iemen. Leymah Gbowee, depois de ter o sonho de se tornar pediatra desfeito por uma guerra civil em seu país, tendo fugido e retornado tempos depois quando, após muito sacrifício, através de um programa do UNICEF, se tornou assistente social, passando a ajudar as vítimas da guerra e, posteriormente, viajando de aldeia em aldeia passou a organizar as mulheres de seu país, juntou cristãs e muçulmanas em torno de um objetivo: a busca pela paz e estabilidade na Libéria, culminando na eleição de uma mulher para a presidência do país. Em um trecho de Mighty Be Our Powers (Que Sejam Fortes os Nossos Poderes), livro de memórias escrito por ela, que consta no artigo da revista, destaquei duas partes que me chamaram a atenção:
A primeira: "Mas juntar as mulheres cristãs e muçulmanas seria difícil. Então, fizemos uma oficina. "Escrevam os seus títulos nesta folha de papel", disse eu ao grupo reunido na sala. "Advogada, médica, mãe, feirante. Ponham os papéis nesta caixa." Levantei uma caixinha de cartolina. "Viram? Estou guardando todos eles. Aqui não somos advogadas, ativistas nem esposas. Não somos cristãs nem muçulmanas, não somos da tribo kpelle, loma, krahn nem mandingo. Não somos nem nativas nem da elite. Somos apenas mulheres."
A segunda: "E sabia que tudo por que passara me trouxera até aqui. Levar as mulheres a lutar pela paz era o que eu queria fazer na vida."
Na conclusão da entrevista, o entrevistador Dawn Raffel, pergunta:
"O que quer que os leitores entendam com o seu livro?
A resposta que ela deu cabe a todas as mulheres que se sentem subjugadas, aliás, a todos os seres humanos nessa situação:
"Quero acabar com o mito das africanas de seios caídos carregando vasilhas de barro e com três crianças atrás durante os conflitos. Quero acabar com o mito de que somos vítimas o tempo todo. Mesmo como vítimas, sobrevivemos. Somos mulheres fortes que passamos pelo inferno e ainda conseguimos nos manter de pé. Onde quer que estejamos, podemos nos levantar. Nada pode nos impedir de sermos o que quisermos."
Autor: Paulo Roberto Nascimento
Li recentemente um artigo da revista Seleções do Reader's Digest onde Leymah Gbowee foi entrevistada. Ela é uma das vencedoras do Prêmio Nobel da Paz 2011 - juntamente com a presidente de seu país - a Libéria - Ellen Johnson Sirleaf, e Tawakkul Karman, ativista do Iemen. Leymah Gbowee, depois de ter o sonho de se tornar pediatra desfeito por uma guerra civil em seu país, tendo fugido e retornado tempos depois quando, após muito sacrifício, através de um programa do UNICEF, se tornou assistente social, passando a ajudar as vítimas da guerra e, posteriormente, viajando de aldeia em aldeia passou a organizar as mulheres de seu país, juntou cristãs e muçulmanas em torno de um objetivo: a busca pela paz e estabilidade na Libéria, culminando na eleição de uma mulher para a presidência do país. Em um trecho de Mighty Be Our Powers (Que Sejam Fortes os Nossos Poderes), livro de memórias escrito por ela, que consta no artigo da revista, destaquei duas partes que me chamaram a atenção:
A primeira: "Mas juntar as mulheres cristãs e muçulmanas seria difícil. Então, fizemos uma oficina. "Escrevam os seus títulos nesta folha de papel", disse eu ao grupo reunido na sala. "Advogada, médica, mãe, feirante. Ponham os papéis nesta caixa." Levantei uma caixinha de cartolina. "Viram? Estou guardando todos eles. Aqui não somos advogadas, ativistas nem esposas. Não somos cristãs nem muçulmanas, não somos da tribo kpelle, loma, krahn nem mandingo. Não somos nem nativas nem da elite. Somos apenas mulheres."
A segunda: "E sabia que tudo por que passara me trouxera até aqui. Levar as mulheres a lutar pela paz era o que eu queria fazer na vida."
Na conclusão da entrevista, o entrevistador Dawn Raffel, pergunta:
"O que quer que os leitores entendam com o seu livro?
A resposta que ela deu cabe a todas as mulheres que se sentem subjugadas, aliás, a todos os seres humanos nessa situação:
"Quero acabar com o mito das africanas de seios caídos carregando vasilhas de barro e com três crianças atrás durante os conflitos. Quero acabar com o mito de que somos vítimas o tempo todo. Mesmo como vítimas, sobrevivemos. Somos mulheres fortes que passamos pelo inferno e ainda conseguimos nos manter de pé. Onde quer que estejamos, podemos nos levantar. Nada pode nos impedir de sermos o que quisermos."
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