Desafio entre gerações

Tinha dezesseis anos, trabalhava no centro da cidade e à noite estudava.  

Mas, em algumas quintas ou sextas-feiras acompanhava o tio - cinco anos mais velho - para um encontro com colegas de bar, a fim de beber umas cervejas e bater papo. 

O bar era localizado na Rua do Rosário, onde ele já tinha conhecido os "ceguinhos" vendedores de bilhetes de loteria; um  jornaleiro italiano, seu Ângelo, que ensinava palavrões em sua língua natal; e outros personagens daquela fauna urbana. 

Um detalhe inusitado: o dono do bar era português, botafoguense e se chamava César, um combo talvez inédito.  Seu tio se reunia ali com seu compadre, um mineiro alto e engraçado e um funcionário de uma loja lotérica daquela rua, com idade aparentando uns cinquenta anos.  Uma variedade de assuntos surgia naquele local, regada a cerveja e umas cachacinhas que os adultos entremeavam de vez em quando durante as conversas, além dos petiscos tradicionais.

Em uma dessas ocasiões, o assunto girou em torno de músicas e o funcionário da lotérica, meio metido a cantor, começou a entoar algumas serestas e boleros e de repente, veio a provocação: 

- Essa garotada só sabe "o tal do rock", não sabem o que é música de verdade!  

Mexeu com a pessoa errada! O garoto provocado respondeu: 

- Gosto muito de rock sim!  Slade, Black Sabbath, The Who, Pink Floyd, são alguns dos meus preferidos, além da MPB de Caetano, Gil, Gal, Betânia, Chico, Milton Nascimento e por aí vai.  Mas, tem um detalhe: meu pai escuta muito Nelson Gonçalves, Altemar Dutra, Orlando Silva, Helena de Lima e ate Waldick Soriano e eu escuto junto e conheço as músicas.  

- Vamos fazer o seguinte: cante aí uma seresta ou bolero para ver se eu não sei!

Começou ali o desafio com A Volta do Boêmio: "Boemia, aqui me tens de regresso e suplicante lhe peço a minha nova inscrição".  Ele puxou a música, e o garoto não só completou como ainda o deixou surpreso. Sucederam-se outras canções e o jovem passou a chamar a atenção dos demais fregueses tanto pela boa voz, quanto pelo conhecimento do repertório.

Essa interação deu ao rapaz um certo prestígio entre os mais velhos e a eles uma sensação de que " nem tudo está perdido nessa geração".

O funcionário da lotérica, que antes duvidava, agora sempre perguntava quando o garoto não estava presente:

— Cadê seu sobrinho bom de onda? No mínimo, deve estar em outro bar dando aula de música!


Autor do texto: Paulo Nascimento


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