sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

Apelidos

O primeiro apelido lhe foi dado pelo próprio pai: "lambreta". Nunca se soube na família a razão do apelido; talvez nem mesmo o pai pudesse explicá-lo.

Depois, no colégio, devido à baixa estatura e ao fato de ser sempre o primeiro nas formações em fileira, passaram a acrescentar o sufixo "inho" ao seu nome. Esse apelido o acompanhou até hoje.

A maior experiência que teve com apelidos foi ao trabalhar em uma fábrica de lingerie. Ao ser recepcionado pelos futuros colegas, um deles, que viria a se tornar seu melhor amigo, desfiou diante dos demais uma lista de apelidos: "salgadinho de casamento", "motorista de carro de bandido", "salva-vidas de aquário", "porteiro de boate infantil" e outros. Os colegas riam com deboche, mas ele não deu muita importância, apenas acrescentando à sua coleção de apelidos mais alguns que já conhecia. Assim, desarmou o que hoje chamamos de bullying e deu início à sua carreira profissional.

Com o tempo, percebeu que os apelidos proliferavam naquele ambiente.

O setor onde trabalhava ficava em um subsolo da fábrica. Era um pequeno escritório com sete funcionários, incluindo a chefe. Próxima à porta, havia uma grande janela de vidro que permitia observar do alto a área de produção. Um dia, em um momento de descontração, seu melhor amigo chamou-o até a janela e comentou:

– Isso aqui parece um zoológico. Olha só.

Apontou para os colegas e continuou:

– Ali estão o Leão, o Cobra, o Ratinho (complicado cobra e rato no mesmo local, mas deixemos isso de lado), o Hipopótamo, o Gambá, o Cara de Cavalo, o Beiço de Mula... e aqui, temos um Cachorrinho – disse, olhando para mim.

Lembrei-o de que ele era conhecido como Cara de Sapo, imitei o coaxar do bicho e ele fingiu indignação, encerrando a brincadeira.

Em outra ocasião, chegaram dois novos funcionários para a produção. Enquanto esperavam em frente à mesa da chefe, começaram os cochichos para definir quais seriam seus apelidos. Eram dois homens altos e negros. Ao perceberem a situação - os cochichos não eram tão baixos - trocaram sorrisos discretos. Até que meu amigo declarou:

– Faísca e Fumaça!

A risada foi geral, inclusive dos dois novos colegas, e só parou com a chegada da chefe, que perguntou:

– Qual a razão dessa risadaria?

Diante do silêncio, meu amigo respondeu:

– Foi só uma piada, nada demais.

A chefe, desconfiada, resmungou um "hãhã" e iniciou a entrevista com os contratados.

Certo dia, no pátio externo da fábrica, estava com meu amigo e outros dois colegas quando passou um funcionário da manutenção conhecido como Papa Léguas – apelido dado por seu jeito de andar quase marchando, com os pés abertos. Ele detestava o apelido e fazia cara feia sempre que o ouvia, o que levava todos a evitá-lo.

No entanto, um dos colegas provocou meu amigo a chamá-lo pelo apelido. Sem perder tempo, ele pegou a buzina de um vendedor de cuscuz próximo e, ao ver Papa Léguas se aproximar, disparou um sonoro "bip bip".

A provocação surtiu efeito: Papa Léguas lançou um olhar de desaprovação, notando os sorrisos ao redor, mas, sem provas, seguiu invocado seu caminho, marchando com seus pés "dez pras duas".

Autor: Paulo Nascimento


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sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

O inusitado final do ano de 1976

 Final de ano, 1976... Naquela época, o último dia do ano tinha meio expediente e, por tradição, havia a chuva de papel picado, originada de documentos inservíveis devidamente rasgados ou de sobras, como confetes, produzidas pelos perfuradores de papel.

Eu trabalhava em uma empresa localizada na avenida Rio Branco, no Centro da cidade do Rio de Janeiro.

Durante a comemoração — janelas abertas no quadragésimo andar — apareceu, do nada, um paraquedas confeccionado com um saco de lixo azul, barbantes e, no lugar de um boneco, um objeto fálico feito de madeira. Sim, isso mesmo! O autor da façanha era o "faz-tudo" da empresa (eletricista, encanador, marceneiro, etc.).

Um dos nossos colegas, com uma destreza singular, conseguiu arremessá-lo. Ao sabor do vento, o paraquedas começou a pairar sobre a avenida. No prédio em frente funcionava um banco famoso, que ainda existe. Vimos, morrendo de rir, uns caras chamando suas colegas para observarem o estranho objeto voador. Algumas mulheres taparam os olhos, enquanto outros se divertiam com o fato inusitado em meio às comemorações.

Era hábito, ao final do meio expediente, nos reunirmos em algum bar antes de irmos para casa, despedindo-nos do ano velho com a expectativa e os desejos de um ano novo melhor.

Essa tradição do papel picado se perdeu com o aumento da consciência ambiental e, como o dia 31 de dezembro foi incorporado ao feriado, essa comemoração agora é apenas uma saudade que guardo na memória.


Autor do texto: Paulo Nascimento


quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Trapaça ou lição?

Em uma das empresas onde trabalhei, durante o intervalo para o almoço, tínhamos o costume de jogar sueca, um jogo de cartas bastante popular. Não havia nada em aposta; era apenas entretenimento. Às vezes, alguns mais competitivos não se conformavam com certas derrotas, mas nada de mais acontecia.

Em uma dessas ocasiões, eu estava jogando com um parceiro contra dois colegas, sendo que um deles era daqueles sujeitos metidos a esperto, sempre se vangloriando de suas vitórias. Ocorre que, ao final da partida, aconteceu a contagem de cartas para determinar a dupla vencedora. Eu, que tinha por hábito contar minhas cartas mentalmente e de forma rápida, observei que tínhamos perdido por dois pontos de diferença, mas aguardei a contagem do meu adversário, que contava alto e devagar, afirmando que haviam ganhado.

Ao final, decepcionado, ele disse que tínhamos empatado, mas, como sempre fui um bom observador, notei que uma das cartas – um rei que valia quatro pontos – ele havia atribuído o valor de dois pontos, obviamente um ato falho. Como com um "esperto" deve-se responder com artimanhas, eu disse que iria recontar minhas cartas, pois tinha a impressão de que a vitória teria sido nossa, em vez do empate declarado por ele. Isso lhe dava, claramente, uma chance para corrigir seu erro.

Contei minhas cartas à minha maneira, e, no meu silêncio, confirmei a nossa derrota. No entanto, aguardei o desfecho da conferência do colega e, novamente, ele errou a contagem. Pela regra, haveria uma nova partida. Rapidamente, juntei todas as cartas, jogamos novamente, vencemos e eles se levantaram da mesa para dar lugar a outra dupla.

Ao final de tudo, como ele ainda continuava com aquela pose de vencedor – cuja derrota é obra do acaso – falei a ele sobre o que havia feito. Sua resposta foi que eu tinha trapaceado. Retrucando, disse que, se ele fosse mais observador e menos falastrão, não teria me dado a oportunidade de enganá-lo.

sábado, 4 de junho de 2022

Alma Verdadeira

Se pareço
Para uns, alegre
Para outros, triste
Para uns, fraco
Para outros, agressivo
Para uns, falso
Para outros, sincero
Para uns, sem graça
Para outros, belo
Para uns, comum
Para outros, inconfundível
A todos... uns e outros,
Sem levar em conta seu julgamento
Responderei com o mesmo sorriso permanente
Que vem da minha alma, verdadeiramente.

Autor: Paulo Roberto Nascimento

sexta-feira, 1 de abril de 2022

Letra e Música

Eu era o dia

Você a noite.

Eu era a tinta

Você o desenho.

Eu era a letra

Você a música.

Eu era a rima

Você o tom.

Eu era o fogo

Você a água.

Eu era o ar

Você a terra.

Eu era o sol

Você a chuva.

Éramos o par perfeito.

Um completava o outro.

Tudo se encaixava.

No entanto,

Eu era a alegria

Você a tristeza.

Eu era o sorriso

Você a lágrima.

Eu era a certeza

Você a dúvida.

Eu era a verdade

E você...

Você continua sendo a mentira.




Música: Ilusion.  Marisa Monte e Julieta Venegas. Vídeo extraído do You Tube.

terça-feira, 15 de março de 2022

Pessoas Sugestionadas

Pessoas Sugestionadas

Pessoas sugestionadas são mentes massificadas:
Indivíduos que não têm força ou opinião,
Nem o hábito de checar informação;
Compram e vivem conforme o que é mostrado
Na mídia, principalmente na televisão.
São cidadãos que não têm vontade
De agir segundo a própria consciência
E conforme sua plena decisão.
Sempre vão buscar e querer
O que se mostra mais fácil:
Que é o de agir e pensar
De acordo com a multidão
Por medo da tão temida exclusão.
E por isso mesmo a opinião alheia
Sempre será sua maior e invisível prisão;
E ser massa de manobra
Será sua grande e suprema premiação

Autor do texto: Sidney Machado.
Poema registrado no Escritório de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional.


                        Música: Comportamento Geral.  Autor: Gonzaguinha.  Vídeo baixado do You Tube

Leia, também: O Povo e o Polvo
                         Lavagem Cerebral
                     
                             

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Acerte o passo

Começamos uma vida a dois
Mas o agora ficou pra depois
Pensava ter um amigo
Vi que agora não conto contigo
Na minha conta não existe fracasso
É melhor acertar esse passo

Dança comigo, senão você dança.

Como um filme que termina sem graça
Assim a nossa vida passa
Não posso prever o futuro
Mas não vou dar um tiro no escuro
Precisamos encontrar um caminho
Dança certinho ou sai de fininho.

Dança comigo, senão você dança.


Texto: Paulo Nascimento

Maria - Acabou

Pronto, xinguei!

Palavrão é algo com que só me acostumei por volta dos 14 anos, por causa do antigo ginasial.  Até ali, mesmo acostumado a escutar não me sen...