domingo, 11 de maio de 2025

Hoje eu só quero que o dia termine bem

A música Simples Desejo, de autoria de Jair Oliveira e Luciana Mello, soava em sua mente como trilha sonora da sua vida, pois achava “legal ficar sorrindo à toa... sorrir pra qualquer pessoa, andar sem rumo na rua”.

Naquela manhã ensolarada, de temperatura agradável, era só o que mais desejava — e a esperança lhe acompanhava, mas tropeçava em bons-dias não correspondidos. Ignorados, melhor dizendo.

Seguia pensativo sobre a falta de gentileza das pessoas e lembrou-se de que, há tempos, dirigiu-se a uma colega de trabalho com um sincero "bom dia", e a resposta veio azeda:

— Para mim, não está nada bom!

Surpreso, a única resposta que lhe veio foi:

— Para mim, quando não está, faço com que fique.

Desistiu de perguntar o motivo daquele azedume e dirigiu seu “bom dia” aos outros colegas, que foram mais receptivos.

Em outra ocasião, foi a vez de um amigo seu lidar com situação parecida — porém, com o humor sarcástico que era sua marca pessoal.

Chegando em um setor, alegre como sempre era, cumprimentou uma colega:

— Bom dia! Como você está bonita hoje!

A resposta veio como um míssil:

— Pena que eu não posso dizer o mesmo.

Sua defesa antiaérea contra-atacou:

— Ora, faz como eu... mente!
Os risos disfarçados dos colegas em volta denunciaram o vencedor da batalha.

De volta à realidade, desejou apenas que o dia terminasse bem.

Autor do texto: Paulo Nascimento, olhar e ouvidos atentos para transformar cenas comuns em crônicas com um toque de ironia e reflexão.




domingo, 4 de maio de 2025

Celular, independência ou morte?

Recentemente, aconteceu um fenômeno raro conhecido como "vibração atmosférica induzida", supostamente a causa de um apagão na Europa, que atingiu Portugal e Espanha e, além de outros transtornos gerou uma pane na rede de celulares daqueles países.  E eu com isso?

"Palma, palma, não priemos cânico", diria o Chaves.  Mas, no caos nosso de cada dia, convivemos com esse aparelho indispensável que para muitos se tornou um vício e criou manias.

Quem nunca viu pessoas subindo ou descendo escadas falando ao celular, sem perceberem o risco iminente de um tombo?

Já viram um sujeito na estação de trem, indo e voltando de uma ponta a outra tratando de algum negócio, gesticulando e apontando para um local imaginário como se seu interlocutor estivesse vendo?  Ou dentro de um ônibus, conversando em voz alta para que todos tomassem conhecimento da sua vida?

Imaginem a cena: uma moto estacionada na calçada e o motoboy dando voltas em torno do veículo, falando ao celular sem parar.

Já passaram pela vergonha de alguém vir na sua direção dizendo “Fala, meu amigo!”, e você responder, achando que era com você, mas a pessoa passar direto porque estava com fone de ouvido, falando ao celular?

Descontando essas situações engraçadas ou constrangedoras, vale refletir: qual é o seu nível de dependência desse aparelho?

Autor do texto: Paulo Nascimento, olhar e ouvidos atentos para transformar cenas comuns em crônicas com um toque de ironia e reflexão.






domingo, 13 de abril de 2025

Mal entendido

Quantas vezes um erro de comunicação pode ter consequências?

Um encarregado de expedição tem que estabelecer uma logística para as tarefas de seus subordinados — no caso, uma equipe de office-boys. Recebeu a informação de que deveria providenciar a entrega de duas correspondências em empresas de endereços diferentes: uma na zona norte e outra na zona oeste da cidade. Porém, com a demora para que ficassem prontas, por volta das 15h ele dispunha apenas de um office-boy, que morava na zona oeste. Pela lógica, determinou que o funcionário entregasse a da zona norte primeiro e, posteriormente, a da zona oeste, destino final do subordinado.

No dia seguinte, entregou os protocolos de entrega para a secretária que havia feito a solicitação. Para sua surpresa, o gerente responsável pelas contas das duas empresas telefonou, irado, dizendo que, pela ordem em que foram entregues, as correspondências não surtiram o efeito desejado, pois deveriam ter sido feitas na ordem inversa. Sua defesa foi alegar que recebeu a tarefa sem nenhuma explicação sobre a ordem de entrega, ficando sua palavra contra a da secretária que, por razões óbvias, alegou ter instruído corretamente.

Bem, fora a raiva do gerente, não houve maiores consequências.

Mas um outro caso — esse engraçado — do qual não participou, mas tomou conhecimento já trabalhando em outra empresa, foi o de um superintendente que chamou um funcionário solicitando o seguinte:

– Fulano, quando for ao banco, me avise, tá bom?
– Pode deixar, chefe, eu aviso.

Passadas algumas horas, o superintendente, distraído com suas tarefas, escuta umas batidas na porta da sala e autoriza:

– Entre!

E eis que surge o Fulano anunciando:

– Chefe, já fui ao banco!

Irado, o chefe grita:

– Deixe de ser bobo! Eu pedi para me avisar quando fosse ao banco, e não quando voltasse! Suma da minha frente!

A porta se fecha lentamente, e o nosso lerdo personagem sai de fininho.

Autor do texto: Paulo Nascimento, olhar e ouvidos atentos para transformar cenas comuns em crônicas com um toque de ironia e reflexão.


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domingo, 6 de abril de 2025

Jeitinho, a gente vê por aqui

Trajeto Central x Itaguaí, onibus tarifa A, confortável, ar condicionado, um passageiro se levanta e puxa o sinal de parada próximo à subida de um viaduto, se aproxima do motorista e pede para que ele dê uma parada embaixo do viaduto.  Diante da recusa do condutor, alegando que sair do trajeto poderia causar-lhe punição da empresa, caso acontecesse um acidente ou enguiçasse, reclamou:
- Mas todo mundo dá uma "descidinha" ali,
Ao que o motorista retrucou:
- Eu não sou todo mundo, meu nome é Peçanha!
Chegando ao ponto, abriu a porta e o passgeiro desceu reclamando, xingando e ainda deu um soco na lataria do veículo.  Peçanha fechou a porta e seguiu viagem como se nada tivesse acontecido.
Tendo como pano de fundo o "jeitinho brasileiro", que enxerga leis e normas como obstáculos, veremos mais um profissional do volante protagonizando esse embate:
Linha 629, quase chegando a Irajá, seu destino final. Em um ponto, um casal de idosos deu sinal para o ônibus, que parou atendendo ao aceno. Eles pediram ao motorista que abrisse a porta traseira, entraram, mostraram seus documentos de identidade para a câmera e se acomodaram nos assentos.

O motorista, observando pelo retrovisor, perguntou:
— Nenhum dos dois tem o cartão do idoso?

A idosa respondeu:
— Não, só a identidade.

E o idoso completou:
— Tá na Constituição, a identidade vale.

O motorista, ainda calmo, argumentou:
— Mas com o cartão fica registrado aqui para a empresa.

A idosa, irritada, respondeu:
— Você é puxa-saco do patrão? Vai envelhecer um dia também.

Demonstrando impaciência, o motorista rebateu:
— É preguiça de tirar o cartão? Não é difícil solicitar... — E, em um tom mais baixo, resmungou consigo mesmo: — Nesse país, não se respeitam as leis. Se fosse em Portugal, não embarcariam, dando a entender conhecer a aplicação das leis naquele país.

Os idosos continuaram resmungando entre si. Mais adiante, acionaram o sinal para descer. Quando o ônibus parou, o idoso reclamou:
— Motorista, abra a porta! Demos o sinal.

A resposta veio mais irritada:
— A porta demora a abrir!

Ao descer, o idoso retrucou:
— Em vez de cuidar dos cartões dos passageiros, devia dar um jeito nessa porta.

O motorista, já explodindo, comentou em tom de desabafo para os demais passageiros:
— Isso é problema da empresa, não meu. Na próxima, não paro mais para eles, nem para quem estiver acompanhando. Já marquei as caras.

Resumo da ópera: As leis existem, mas convivem com a falta de civilidade.



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domingo, 30 de março de 2025

Ser poeta

Lembrando que no dia 21 de março foi comemorado o Dia Mundial da Poesia, presto uma homenagem aos poetas que colaboram com o nosso blog: Lúcia Andrade, Sidney Machado e Pablo Queiróz.

SER POETA

Ser Poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! 
Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma e sangue e vida em mim.
E dizê-lo cantando a toda gente!


Florbela Espanca, em seu livro Charneca em Flor, publicado em janeiro de 1931, um mês após sua morte, com sua poesia intensa e melancólica, expressa a poesia como um destino inevitável, uma vocação que consome e engrandece ao mesmo tempo. O poema enaltece a figura do poeta como alguém que sente a vida de maneira extrema e a transforma em arte.

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domingo, 23 de março de 2025

Vai chover hoje?

Saindo de casa para o trabalho, olho para cima e vejo o céu carregado de nuvens, o que me leva a calcular que, em vinte e cinco minutos, chegarei ao destino – trajeto a pé que faço diariamente – sem necessidade do guarda-chuva.
Assim faço e, como ando ligeiro, sigo despreocupado.  Já estava próximo de chegar quando percebi o cenário: até então, meu trajeto contava com abrigos que me protegeriam da chuva iminente... ali, não!
Não, não começou com respingos. Veio como um balde d’água de uma vez só, encharcando-me na hora, sem que eu tivesse oportunidade de correr. Continuei resignado, encharcado e revoltado até chegar ao local de trabalho, uma fábrica, e entrando no meu setor fui recebido pelos colegas com um coro de risadas, sendo que um deles se jogou ao chão, enfatizando ainda mais o ridículo da minha situação.  Esse colega providenciou um uniforme e botinas na CIPA para que minhas roupas secassem e, ao final do dia, eu pudesse voltar seco para casa.
Desde então, passei a carregar um guarda-chuva na mochila. Mas qual é, afinal, a segurança que ele garante?
Nenhuma!  Anos depois em outro emprego, a história de um colega confirmou isso.
Ele contou que, após visitar um cliente, chegou à estação Largo da Carioca do metrô debaixo de muita chuva. Na saída, uma multidão esperava a tempestade diminuir.  Pedindo passagem entre as demais pessoas e, com ar superior, tirou seu guarda-chuva automático da bolsa, apontou para a frente, apertando a trava de segurança e assistiu o guarda-chuva "voando" para a rua, restando só o cabo em sua mão e a vergonha diante da platéia.
Agora pergunto: vai chover hoje?

Autor do texto: Paulo Nascimento


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domingo, 16 de março de 2025

Desafio entre gerações

Tinha dezesseis anos, trabalhava no centro da cidade e à noite estudava.  

Mas, em algumas quintas ou sextas-feiras acompanhava o tio - cinco anos mais velho - para um encontro com colegas de bar, a fim de beber umas cervejas e bater papo. 

O bar era localizado na Rua do Rosário, onde ele já tinha conhecido os "ceguinhos" vendedores de bilhetes de loteria; um  jornaleiro italiano, seu Ângelo, que ensinava palavrões em sua língua natal; e outros personagens daquela fauna urbana. 

Um detalhe inusitado: o dono do bar era português, botafoguense e se chamava César, um combo talvez inédito.  Seu tio se reunia ali com seu compadre, um mineiro alto e engraçado e um funcionário de uma loja lotérica daquela rua, com idade aparentando uns cinquenta anos.  Uma variedade de assuntos surgia naquele local, regada a cerveja e umas cachacinhas que os adultos entremeavam de vez em quando durante as conversas, além dos petiscos tradicionais.

Em uma dessas ocasiões, o assunto girou em torno de músicas e o funcionário da lotérica, meio metido a cantor, começou a entoar algumas serestas e boleros e de repente, veio a provocação: 

- Essa garotada só sabe "o tal do rock", não sabem o que é música de verdade!  

Mexeu com a pessoa errada! O garoto provocado respondeu: 

- Gosto muito de rock sim!  Slade, Black Sabbath, The Who, Pink Floyd, são alguns dos meus preferidos, além da MPB de Caetano, Gil, Gal, Betânia, Chico, Milton Nascimento e por aí vai.  Mas, tem um detalhe: meu pai escuta muito Nelson Gonçalves, Altemar Dutra, Orlando Silva, Helena de Lima e ate Waldick Soriano e eu escuto junto e conheço as músicas.  

- Vamos fazer o seguinte: cante aí uma seresta ou bolero para ver se eu não sei!

Começou ali o desafio com A Volta do Boêmio: "Boemia, aqui me tens de regresso e suplicante lhe peço a minha nova inscrição".  Ele puxou a música, e o garoto não só completou como ainda o deixou surpreso. Sucederam-se outras canções e o jovem passou a chamar a atenção dos demais fregueses tanto pela boa voz, quanto pelo conhecimento do repertório.

Essa interação deu ao rapaz um certo prestígio entre os mais velhos e a eles uma sensação de que " nem tudo está perdido nessa geração".

O funcionário da lotérica, que antes duvidava, agora sempre perguntava quando o garoto não estava presente:

— Cadê seu sobrinho bom de onda? No mínimo, deve estar em outro bar dando aula de música!


Autor do texto: Paulo Nascimento


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Pronto, xinguei!

Palavrão é algo com que só me acostumei por volta dos 14 anos, por causa do antigo ginasial.  Até ali, mesmo acostumado a escutar não me sen...