sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

O fanatismo e suas consequências



Madureira é um bairro pulsante, multicultural, conhecido como o "Berço do Samba". Lá se encontram duas das mais tradicionais escolas de samba do Rio de Janeiro e o famoso baile charme sob o Viaduto Negrão de Lima, entre outras atrações. É também o lar do Mercadão de Madureira, o maior mercado popular do Brasil. Foi ali que esta história aconteceu.

Desempregado e me esforçando para honrar meus compromissos, como todo brasileiro eu buscava alternativas para sobreviver. Vendia picolés em casa e nas ruas, além de pipas, linhas, rabiolas e outras bugigangas. Grande parte desse material eu comprava no Mercadão.

Nas minhas contas, sempre sobrava uma pequena folga. Era o suficiente para um pedaço de torresmo e duas cervejas, pretexto para boas conversas no bar do subsolo do Mercadão – antes do incêndio de 2000. As conversas geralmente giravam em torno de futebol, uma das minhas paixões. Embora não fosse nenhum craque, como jogador mediano - de peladas, mas também de campeonatos de uma fábrica, onde trabalhei - eu tinha um bom conhecimento do assunto.

Durante uma dessas conversas, um dos frequentadores, torcedor declarado do Flamengo, elogiou meu entendimento sobre futebol, mesmo sabendo que eu era botafoguense. Com entusiasmo, ele tirou um álbum surrado de uma sacola e começou a nos mostrar fotos suas ao lado de Zico, Adílio, Nunes e outros ídolos rubro-negros. Orgulhoso, contava que ia a quase todos os jogos, inclusive os fora do Rio de Janeiro.

No entanto, o rumo da conversa começou a me inquietar. Ele relatava, também com orgulho, que trabalhava como soldador e que “queimava os olhos” – sim, sem usar óculos de proteção – para conseguir atestados médicos que lhe permitissem faltar ao trabalho e acompanhar o Flamengo. Falou disso com tanto fervor que eu mal sabia como reagir.

Por fim, com um olhar triste, revelou que hoje sofria de problemas sérios de visão e que a Previdência Social não reconhecia sua condição para a aposentadoria. A paixão que antes sustentava sua narrativa agora parecia ter virado um fardo.

Foi nesse momento que, estrategicamente, me preparei para ir embora. Cumprimentei todos, paguei minha conta e peguei minhas mercadorias. No caminho de casa, não consegui parar de refletir sobre o que presenciei. É incrível como o fanatismo, em qualquer área, pode levar as pessoas a decisões que sacrificam sua própria dignidade e saúde.

Link interessante:
https://oglobo.globo.com/rio/noticia/2025/01/03/baile-charme-de-madureira-e-destaque-no-new-york-times-como-simbolo-da-identidade-e-da-cultura-negra.ghtml


Mercadão antigo de Madureira - 1982, foto extraída da página Rio Antigo, no X.

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sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

Trotes nos anos 70

Nos anos 70, aos 15 anos de idade, eu trabalhava em uma empresa no Centro do Rio de Janeiro. Um dos costumes da época era receber os office boys novatos com trotes. Confesso que fui uma das vítimas, mas, sem falsa modéstia, consegui me sair bem.

Não foi o caso de um colega, e eu testemunhei um desses trotes "in loco". Trabalhávamos em uma sala no 19⁰ andar. A divisória de frente para o corredor tinha metade inferior de madeira e a parte superior de vidro. Através dela, observei um novato gesticulando muito e conversando com um veterano e percebi o que estava para acontecer.

Novato: — Poxa, esse pessoal daqui não é mole.

Veterano: — O que aconteceu?

Novato: — Ah! Fizeram uma brincadeira chata comigo.

Veterano: — Como assim?

Novato: — Estava no 13⁰ andar e me pediram para ir ao 18⁰ buscar uma "chave para fechar balanço". Lá, me disseram que a chave tinha sido emprestada a um funcionário do 14⁰. Quando cheguei no local, me mandaram para o 16⁰. Fiquei assim, de andar em andar, até perceber que era sacanagem.

Nesse momento, cheguei mais perto. Já conhecia o jeito moleque do veterano e percebi que ele estava preparando o "bote". Ele abraçou o novato e começou:

— Nesses anos em que estou aqui, nunca concordei com essas brincadeiras. Acho  desnecessários esses trotes, ninguém merece, e blá, blá, blá...

A resposta do novato mostrou que ele havia mordido a isca:

— Ainda bem que tem gente legal igual a você. Eu só quero trabalhar, mas o pessoal só faz brincadeira. Valeu, cara!

— Por nada. Vamos trabalhar que é melhor — disse o veterano, desfazendo o abraço e afastando-se. Porém, como se lembrasse de algo, completou:

— Caramba, acabei me esquecendo!

O novato, preocupado, perguntou:

— O que foi?

E o veterano respondeu:

— Fiquei de pegar a régua elétrica para o fulano lá no 14⁰ andar. Acho que está com o sicrano.

Prontamente, o novato se ofereceu:

— Eu pego para você!

Ele saiu às pressas, pela escada, ansioso para ajudar o "amigo". Olhei para a cara de deboche do veterano e balancei a cabeça. Voltamos para nossa sala e comentamos sobre a "vareta para desentupir fio"; o "quilo de eletricidade em pó"; a "escada para pintar rodapé" e outras invenções para trotes.  Uns quinze minutos depois, a vítima voltou, com o rosto vermelho, reclamando com o veterano:

— Pô! Até você? 

E, pisando forte, saiu indignado.

Mais um incauto "batizado"! Esse, por duas vezes.


Autor do texto: Paulo Nascimento


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sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Equipamentos melindrosos (republicado)

Certo dia, em um setor de uma empresa onde trabalhei, um colega revisava a copiadora multifuncional que apresentara problemas de funcionamento. Após vários procedimentos rotineiros, ela voltou a funcionar, embora o motivo do problema não tenha sido identificado. "Talvez seja só uma manha do equipamento", comentamos, antes que ele se retirasse.

Esse episódio me fez lembrar de outra ocasião, enquanto aguardava na fila do correio, na agência Primeiro de Março. Conversava com uma pessoa próxima quando presenciamos um acontecimento curioso: a máquina seladora da agência parou de funcionar repentinamente. A funcionária tentou solucionar o problema, sem sucesso. Chamou, então, a colega mais próxima, que também não teve êxito e sugeriu: "Chama a fulana; ela entende disso."

A "fulana" foi chamada e, com ares de especialista, examinou a máquina de vários ângulos. Decidida, deu um forte tapa em uma das laterais do equipamento, que voltou a funcionar imediatamente.

Resolvido o problema, a nossa "técnica" voltou ao trabalho com ares de "mais um caso resolvido". Eu e a pessoa com quem conversava trocamos olhares e, após o espanto inicial, caímos na risada diante do talento da especialista em "porradinha".

No caso da nossa copiadora, o colega não precisou recorrer a esse artifício. No entanto, fica a dúvida: será que, sem percebermos, ele usou alguma forma sutil de ameaça para fazê-la funcionar?

Quem consegue entender esses equipamentos? E, se tivessem sentimentos, como reagiriam?


 Autor: Paulo Nascimento

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sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

Apelidos

O primeiro apelido lhe foi dado pelo próprio pai: "lambreta". Nunca se soube na família a razão do apelido; talvez nem mesmo o pai pudesse explicá-lo.

Depois, no colégio, devido à baixa estatura e ao fato de ser sempre o primeiro nas formações em fileira, passaram a acrescentar o sufixo "inho" ao seu nome. Esse apelido o acompanhou até hoje.

A maior experiência que teve com apelidos foi ao trabalhar em uma fábrica de lingerie. Ao ser recepcionado pelos futuros colegas, um deles, que viria a se tornar seu melhor amigo, desfiou diante dos demais uma lista de apelidos: "salgadinho de casamento", "motorista de carro de bandido", "salva-vidas de aquário", "porteiro de boate infantil" e outros. Os colegas riam com deboche, mas ele não deu muita importância, apenas acrescentando à sua coleção de apelidos mais alguns que já conhecia. Assim, desarmou o que hoje chamamos de bullying e deu início à sua carreira profissional.

Com o tempo, percebeu que os apelidos proliferavam naquele ambiente.

O setor onde trabalhava ficava em um subsolo da fábrica. Era um pequeno escritório com sete funcionários, incluindo a chefe. Próxima à porta, havia uma grande janela de vidro que permitia observar do alto a área de produção. Um dia, em um momento de descontração, seu melhor amigo chamou-o até a janela e comentou:

– Isso aqui parece um zoológico. Olha só.

Apontou para os colegas e continuou:

– Ali estão o Leão, o Cobra, o Ratinho (complicado cobra e rato no mesmo local, mas deixemos isso de lado), o Hipopótamo, o Gambá, o Cara de Cavalo, o Beiço de Mula... e aqui, temos um Cachorrinho – disse, olhando para mim.

Lembrei-o de que ele era conhecido como Cara de Sapo, imitei o coaxar do bicho e ele fingiu indignação, encerrando a brincadeira.

Em outra ocasião, chegaram dois novos funcionários para a produção. Enquanto esperavam em frente à mesa da chefe, começaram os cochichos para definir quais seriam seus apelidos. Eram dois homens altos e negros. Ao perceberem a situação - os cochichos não eram tão baixos - trocaram sorrisos discretos. Até que meu amigo declarou:

– Faísca e Fumaça!

A risada foi geral, inclusive dos dois novos colegas, e só parou com a chegada da chefe, que perguntou:

– Qual a razão dessa risadaria?

Diante do silêncio, meu amigo respondeu:

– Foi só uma piada, nada demais.

A chefe, desconfiada, resmungou um "hãhã" e iniciou a entrevista com os contratados.

Certo dia, no pátio externo da fábrica, estava com meu amigo e outros dois colegas quando passou um funcionário da manutenção conhecido como Papa Léguas – apelido dado por seu jeito de andar quase marchando, com os pés abertos. Ele detestava o apelido e fazia cara feia sempre que o ouvia, o que levava todos a evitá-lo.

No entanto, um dos colegas provocou meu amigo a chamá-lo pelo apelido. Sem perder tempo, ele pegou a buzina de um vendedor de cuscuz próximo e, ao ver Papa Léguas se aproximar, disparou um sonoro "bip bip".

A provocação surtiu efeito: Papa Léguas lançou um olhar de desaprovação, notando os sorrisos ao redor, mas, sem provas, seguiu invocado seu caminho, marchando com seus pés "dez pras duas".

Autor: Paulo Nascimento


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sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

O inusitado final do ano de 1976

 Final de ano, 1976... Naquela época, o último dia do ano tinha meio expediente e, por tradição, havia a chuva de papel picado, originada de documentos inservíveis devidamente rasgados ou de sobras, como confetes, produzidas pelos perfuradores de papel.

Eu trabalhava em uma empresa localizada na avenida Rio Branco, no Centro da cidade do Rio de Janeiro.

Durante a comemoração — janelas abertas no quadragésimo andar — apareceu, do nada, um paraquedas confeccionado com um saco de lixo azul, barbantes e, no lugar de um boneco, um objeto fálico feito de madeira. Sim, isso mesmo! O autor da façanha era o "faz-tudo" da empresa (eletricista, encanador, marceneiro, etc.).

Um dos nossos colegas, com uma destreza singular, conseguiu arremessá-lo. Ao sabor do vento, o paraquedas começou a pairar sobre a avenida. No prédio em frente funcionava um banco famoso, que ainda existe. Vimos, morrendo de rir, uns caras chamando suas colegas para observarem o estranho objeto voador. Algumas mulheres taparam os olhos, enquanto outros se divertiam com o fato inusitado em meio às comemorações.

Era hábito, ao final do meio expediente, nos reunirmos em algum bar antes de irmos para casa, despedindo-nos do ano velho com a expectativa e os desejos de um ano novo melhor.

Essa tradição do papel picado se perdeu com o aumento da consciência ambiental e, como o dia 31 de dezembro foi incorporado ao feriado, essa comemoração agora é apenas uma saudade que guardo na memória.


Autor do texto: Paulo Nascimento


quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Trapaça ou lição?

Em uma das empresas onde trabalhei, durante o intervalo para o almoço, tínhamos o costume de jogar sueca, um jogo de cartas bastante popular. Não havia nada em aposta; era apenas entretenimento. Às vezes, alguns mais competitivos não se conformavam com certas derrotas, mas nada de mais acontecia.

Em uma dessas ocasiões, eu estava jogando com um parceiro contra dois colegas, sendo que um deles era daqueles sujeitos metidos a esperto, sempre se vangloriando de suas vitórias. Ocorre que, ao final da partida, aconteceu a contagem de cartas para determinar a dupla vencedora. Eu, que tinha por hábito contar minhas cartas mentalmente e de forma rápida, observei que tínhamos perdido por dois pontos de diferença, mas aguardei a contagem do meu adversário, que contava alto e devagar, afirmando que haviam ganhado.

Ao final, decepcionado, ele disse que tínhamos empatado, mas, como sempre fui um bom observador, notei que uma das cartas – um rei que valia quatro pontos – ele havia atribuído o valor de dois pontos, obviamente um ato falho. Como com um "esperto" deve-se responder com artimanhas, eu disse que iria recontar minhas cartas, pois tinha a impressão de que a vitória teria sido nossa, em vez do empate declarado por ele. Isso lhe dava, claramente, uma chance para corrigir seu erro.

Contei minhas cartas à minha maneira, e, no meu silêncio, confirmei a nossa derrota. No entanto, aguardei o desfecho da conferência do colega e, novamente, ele errou a contagem. Pela regra, haveria uma nova partida. Rapidamente, juntei todas as cartas, jogamos novamente, vencemos e eles se levantaram da mesa para dar lugar a outra dupla.

Ao final de tudo, como ele ainda continuava com aquela pose de vencedor – cuja derrota é obra do acaso – falei a ele sobre o que havia feito. Sua resposta foi que eu tinha trapaceado. Retrucando, disse que, se ele fosse mais observador e menos falastrão, não teria me dado a oportunidade de enganá-lo.

Pronto, xinguei!

Palavrão é algo com que só me acostumei por volta dos 14 anos, por causa do antigo ginasial.  Até ali, mesmo acostumado a escutar não me sen...